quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Conhecendo o Projeto Aguadas

A palavra “aguada” é um termo bem enraizado na região semiárida do Brasil. As aguadas caracterizam-se por pequenos baixios naturais, às vezes aprofundados pelo trabalho da população local, onde se acumula a água durante o período chuvoso.
Durante séculos as aguadas foram as principais fontes de armazenamento de água para o homem e os animais da região. Porém, por ser coletada através do escoamento superficial, a água acumulada nestes reservatórios não é adequada para o consumo humano, pois carrega inúmeras impurezas. Além disso, o líquido armazenado nestes baixios está exposto a uma forte evaporação (em 12 meses chega a três metros de coluna d'água!) e boa parte restante ainda se perde por infiltração. Outro limitante desta tecnologia é que o reservatório fica a cada ano mais raso, pois as primeiras chuvas, sempre torrenciais, arrastam consigo a terra solta da superfície.
Mesmo que a questão da água potável não esteja totalmente solucionada para quem vive no semiárido, a direção está marcada. Atualmente, alternativas mais apropriadas para o armazenamento da água para o consumo humano, como a cisterna, o poço tubular ou a cacimba cavada braçalmente ao lado de um riacho ou rio temporário, estão cada vez mais comuns entre as famílias das zonas rurais. Porém, persiste a grande pergunta: de onde deve vir a água para os rebanhos e para irrigar pequenas hortas domésticas?

Reciclando tecnologias
Acreditando no aperfeiçoamento de antigas tecnologias como alternativa de Convivência para as famílias rurais do Semiárido baiano, nove organizações da sociedade civil dessa região estão desenvolvendo o Projeto Aguadas. O projeto, financiado através do Instituto de Gestão das Águas e Clima, do Governo do Estado da Bahia, pretende contribuir para melhoria da qualidade de vida nas comunidades retomando e aperfeiçoando tecnologias de captação e retenção das águas das chuvas.
As ações do projeto são simples e contextualizadas à realidade do Semiárido, com baixo custo e impactos ambientais insignificantes. Entre as vantagens do "Aguadas" estão a implantação de bombas manuais em poços tubulares cavados, mas não utilizados; a escavação de fossos estreitos e profundos, onde a água fica mais fria e evapora muito menos, e o aprofundamento da parte central de aguadas já existentes, pois com o atual formato, que muitas vezes se assemelha a pratos rasos, a água evapora com muita rapidez.
Para ativar poços tubulares já cavados, mas sem equipamentos, serão instaladas as já conhecidas BAP's – Bombas d'Água Popular, que conseguem elevar a água de uma profundidade de até 80 metros, sendo fabricadas com materiais absolutamente resistentes à corrosão.
Além disso, a população terá acesso a grandes cisternas subterrâneas de 50.000 litros, que captam também a água da superfície da terra, equipadas com armadilhas que retêm materiais arrastados pela enxurrada. Já que são cobertas, a perda por evaporação é reduzida ao mínimo. A água dessas cisternas deve ser utilizada para animais e as hortas. Ao todo serão instalados 134 equipamentos hídricos, todos pensados para fornecer água para atividades produtivas, especialmente para fornecer água para caprinos e ovinos, aves, irrigar pequenas hortas e algumas fruteiras.
Paralelamente a essas ações, são planejados novos reservatórios no formato dos já conhecidos “caxios”, rebatizados de “barreiro trincheira”. O nome deriva de “caixa” e as estas se assemelham: reservatórios profundos, de paredes íngremes, como profundidade que ultrapassa os três metros, escavados na camada metamórfica do granito. Por conta das transformações físicas e químicas, a camada amolece e recebe o nome de piçarra. Aqui as valetas adutoras são cavadas com o mínimo de declive, desembocando numa escavação em frente ao barreiro trincheira num fosso de sedimentação para a areia e barro arrastados pela água. Nesta atividade serão aplicadas 30 horas de trator para cada unidade de barreiro trincheira.
Nesse sentido, o projeto consiste na formação das famílias com base nos princípios da Convivência com o Semiárido, como a criação de animais e os cuidados com uma pequena horta. A questão fundiária torna-se o centro das discussões: a terra disponível para as famílias é suficiente para a condição do Semiárido? Quais os desafios e as alternativas existentes? No decorrer do projeto, agricultores e agricultoras familiares receberão informações por meio de assessoria técnica. Com estas medidas o projeto pretende melhorar a qualidade de vida e a geração de renda de 400 famílias em seis municípios do alto sertão da Bahia.

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