sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dia do Nordeste

Postado originalmente no Náufragos no Sertão.


Nossa família retornou ao Nordeste em 1995. Era um sonho antigo alimentado por minha mãe e minha avó. Vó Maria é de Itororó, minha mãe de Cândido Sales, aqui na Bahia. Nossos tios e nossa mãe foram para São Paulo em 1975 porque aqui não possuíam nada, nem terra, nem casa, nem escola, nem raiz. Em São Paulo estudaram mais um pouco, um tantinho só, o que estudou mais terminou o ensino fundamental. Trabalharam muito, receberam não tão muito. Perdemos um tio para a violência paulistana, outro permanece lá, vinte e cinco anos de trabalho e vivendo ainda de aluguel. Mas minha vó e minha mãe desejavam voltar. Voltamos.

Apesar de terem morado lá durante vinte anos, a família nunca deixou de ser nordestina. Pais, tios, vizinhos, ao nosso redor sempre tiveram pernambucanos, paraibanos, baianos, cearenses, ‘nortistas’ no dizer geral. E a gente cresceu assim, ouvindo que baiano é preguiçoso, pernambucano é briguento, paraibana é mulher-macho, cearense é cabra perigoso, os paulistinhas eram metidos a bestas, carioca malandro, mineiro cabreiro. Mas de paulistas no meio, só as crianças.

A Bahia na minha mente figurava como alguma coisa entre um paraíso perdido, um deserto sem muros altos ou grades, uma terra de segurança e traquilidade. Quando viemos não faltou gente para dizer que passaríamos fome e cresceríamos analfabetos. Ironicamente nossa vida por aqui foi mais confortável. Eu já estou graduada e o meu irmão está a caminho disso. E nunca fomos ricos. 

Na minha cidade ainda dá pra sair de casa e esquecer de trancar a porta. Os muros não  precisam ser tão altos. Dá pra saber o nome de todos os moradores do bairro e ainda decorar junto o nome dos pais e avós. Pela praça central da cidade desfilam os mais ricos e os mais pobres (e quase não é possível diferenciar um do outro). Não tem escola de rico e escola de pobre, aliás, as escolas da periferia são mais novas e mais conservadas. O pessoal da zona rural, pelo que me consta, vive melhor do que o pessoal da sede, tirando o problema com a falta de água. Mas por lá tem mais emprego. Infelizmente muitos jovens ainda vão embora para buscar oportunidades. Torcemos todos pelo dia em que eles não precisem ir.

Existem diferenças culturais entre o norte e o sul, é óbvio. Mas posso dizer com convicção que não são tão grandes assim. Há problemas aqui e lá, há vantagens lá, há vantagens aqui. No geral, a realidade é a mesma.
E o meu tio de São Paulo sempre telefona dizendo que quer voltar.

Em tempo: 
Coisas que eu só tive aqui no nordeste: um quintal enorme para brincar; jogar bola na rua sem medo de ser atropelada; comer fruta tirada do pé; nadar em rio; passar por baixo do arame da cerca; atravessar mata-burro; beber leite in natura; ovo de galinha caipira; comer pamonha e curau do milho plantado no quintal de casa; ver os velhinhos tirarem os chapéus em respeito às moças que passavam; rezar em procissões; furar o pé em espinho de surucucu; correr com medo de vaca parida; admirar a floração do mandacarú; roubar manga; fazer vassoura de mato; ouvir heavy metal enquanto atravesso o sertão.
 

2 comentários:

  1. Esse texto retrata nitidamente a realidade de muitas famílias do semiárido ,que buscam condições melhores na grande São Paulo, más que felizmente, a exemplo do texto tem acontecido o processo inverso, as pessoas estão vendo que é viável a vida aqui no nosso semi-árido. E vamos continuar lutando por um semiárido cada dia mais feliz.

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  2. Parabéns este txto é muito bom retrata assuntos interesantes, Este texto mostra o papel que a qualidade de vida de cada um desempenha na determinação do sucesso ou fracasso. A persistência de indicadores desfavoráveis para regiões pobres contradiz a tese da convergência neoclássica e evidencia as falhas das políticas keynesianas. Diante das limitações. Vlw CEDASB.....

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Comentários